|
ATENÇÃO INTEGRAL AO PACIENTE COM PÉ DIABÉTICO
DE OLHO NO PÉ
Segundo a Organização Mundial de Saúde – OMS, até o ano de 2024 a população mundial de diabéticos chegará a mais de 350 milhões de pessoas. Esta estatística assustadora faz com que entidades de todo o mundo percebam a importância de estabelecer metas para o tratamento da doença, como também para o esclarecimento da população sobre as formas de prevenção e diagnóstico.
O tratamento e, principalmente, a profilaxia das complicações do diabetes, são reais desafios deste século que se inicia. Uma verdadeira epidemia de vítimas desta doença levará, nos próximos anos, uma legião de pacientes aos consultórios e hospitais no Brasil e no mundo. Segundo estimativas oficiais brasileiras, cerca de 46% dos portadores da doença não têm conhecimento da sua condição. Entre aqueles que já possuem o diagnóstico, 22,3% não se tratam. A soma desses percentuais mostra que quase 70% de doentes não dão a devida atenção ao problema.
A análise de outros dados, como os apresentados em 2003 pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), em sua publicação “Doenças Crônico-degenerativas e Obesidade – Estratégia mundial sobre alimentação saudável, atividade física e saúde”, empalidece a realidade apresentada acima ao afirmar o crescimento mundial da verdadeira epidemia de diabetes no mundo, com dados que revelam o salto de 30 milhões para 135 milhões de portadores da doença em apenas uma década (1985-1995) e o número mundial de 177 milhões de diabéticos em 2000. Calcula ainda que existirão aproximadamente 370 milhões de diabéticos no mundo em 2030. Mais preocupante ainda é a afirmativa de que a maioria desses doentes, nos países em desenvolvimento, estará na faixa de 45 a 65 anos, ou seja, em sua fase mais produtiva. Nessa mesma publicação, a Opas coloca o Brasil entre os 10 principais países do mundo em população diabética, calcula em 4 milhões o número de mortes anuais atribuíveis às complicações da doença e sugere que os custos da doença podem variar de 2,5% a 15% dos orçamentos anuais da saúde nos países avaliados.
Quando não controlado, o diabetes é uma doença crônica que leva a complicações graves no sistema cardiovascular, por acelerar e aumentar a extensão da arteriosclerose, e no sistema nervoso, com importante neuropatia em níveis central e periférico, além de atingir de forma impiedosa os rins, o coração e o cérebro. O infarto do miocárdio, os acidentes vasculares cerebrais e a isquemia dos membros inferiores são dependentes das alterações do sistema cardiovascular. A neuropatia diabética é a principal causa de amputações não traumáticas dos membros inferiores em todo o mundo e a microangiopatia diabética transforma essa doença, quando não adequadamente tratada, na principal causa de cegueira adquirida e de insuficiência renal crônica com diálise em todo o mundo ocidental.
O Pé Diabético, terminologia empregada para enfeixar as diversas alterações e complicações ocorridas, isoladamente ou em conjunto, nos pés e nos membros inferiores dos diabéticos, é hoje uma preocupação mundial, tanto em nações desenvolvidas como, principalmente, nas, assim chamadas, em desenvolvimento. O custo humano e financeiro dessa complicação é imenso, mas a simples conscientização das autoridades e da comunidade quanto à necessidade de um bom controle da doença e da implantação de medidas relativamente simples de assistência preventiva pouparia muito sofrimento.
As complicações podológicas associadas ao diabetes mellitus constituem, hoje, um dos maiores problemas enfrentados pelos sistemas de saúde em todo o mundo. Seu tratamento tem elevado custo social e econômico, tendo ainda características variáveis nas diversas populações e regiões geográficas envolvidas. O enfrentamento de tão grandioso desafio é primordial para o resgate não apenas do bem-estar da população brasileira dependente do Sistema Público de Atenção à Saúde, como também da saúde do próprio Sistema.
Dados específicos do problema
No momento, a condição socioeconômica e o acesso aos Sistemas de Saúde parecem ser os aspectos mais importantes em termos de risco de amputação.
· Cerca de 15% dos diabéticos deverão apresentar úlceras nos pés durante sua vida.
· Entre 5 e 15% dos pacientes diabéticos vão sofrer uma amputação em alguma época de suas vidas.
· A possibilidade de os diabéticos sofrerem uma amputação é 15 vezes maior do que na população de não-diabéticos.
· A neuropatia está presente em 70 a 100% dos pacientes diabéticos com úlcera.
· Em alguns estudos, verificou-se que até 47% das úlceras responsáveis pela internação dos diabéticos eram previamente desconhecidas dos seus médicos de atenção primária.
· Até 25% dos custos diretos com diabetes nos EUA são dirigidos ao tratamento do Pé Diabético (cerca de 13 bilhões de dólares/ano, atualmente).
· Dados do Censo do IBGE 2000 estimam a população brasileira em 169.799.170 habitantes, permitindo inferir uma população diabética bem superior aos 5 milhões de indivíduos até então previstos. A simples aplicação destes valores à provável incidência de amputações relacionadas ao diabetes descrita acima nos leva ao alarmante número de aproximadamente 40.000 amputações/ano em pacientes diabéticos no Brasil, a maioria não informada. A atualização desses dados, levando em conta as avaliações da Opas, projetará, certamente, nossos números a níveis bem mais elevados.
Todo esse cenário catastrófico está presente em nosso meio, agravado pelas já conhecidas deficiências do nosso sistema de saúde. As características de cronicidade, pouca sintomatologia nas fases iniciais do desenvolvimento da doença e custo elevado das melhores drogas e dispositivos necessários para tratar adequadamente uma parcela dos diabéticos se soma à absoluta falta de informação da grande maioria da população em relação ao diabetes e à efetividade da prevenção de suas complicações e de seu tratamento.
Necessário se faz, então, que, a par dos investimentos na adequação de nosso combalido sistema de saúde, façamos todos (governo, associações, sociedades científicas, universidades, indústria, comércio, etc....) um esforço concentrado para disponibilizar esse conhecimento e as informações que irão, certamente, mudar o destino de milhões de diabéticos.
A SBACV não poderia se omitir desse esforço, principalmente ao considerar a direta interferência dessas complicações no dia-a-dia do angiologista e do cirurgião vascular, e com o Pé Diabético ocupando o topo da lista de nós críticos no exercício da especialidade, em particular no serviço público. A estratégia escolhida pela atual diretoria, presidida pelo Prof. Guilherme Pitta foi a criação de uma Coordenação de Projetos Sociais, encabeçada por um projeto voltado para o Pé Diabético. O projeto escolhido, desenvolvido em conjunto com a ACD - Associação Carioca de Diabéticos e apoiado pela FENAD - Federação Nacional de Associações e Entidades de Diabetes, é composto de duas (2) ações que se complementam: O Programa de Atenção Integral ao Pé diabético e a campanha DE OLHO NO PÈ, que deverão ter divulgação nacional e passam a ser prioridade na agenda da Diretoria Nacional da SBACV.
PROGRAMA DE ATENÇÃO INTEGRAL AO PACIENTE PORTADOR DE PÉ DIABÉTICO - PAIPPD
Implantado na Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro em 2002/2003, teve como desencadeante um artigo publicado em um grande jornal pelo Dr. Ivan Arbex, gerador de uma Ação Civil Pública do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro, impressionado com o número de amputações e a gravidade da situação dos diabéticos no município. Esse Programa, idealizado pelo Dr. Jackson Caiafa, é voltado para a capacitação de profissionais de saúde e foi implementado, inicialmente, no município do Rio de Janeiro, com o treinamento de 575 profissionais de saúde da rede básica municipal, a criação de Pólos Secundários de Atenção e a formação de 30 profissionais multiplicadores das áreas programáticas da Prefeitura do Rio, gerando atendimento de qualidade na atenção primária, fluxos diretos de encaminhamento e atendimento secundário e terciário especializado. Desde sua idealização, esse projeto contou com o apoio integral da Regional do Rio de Janeiro da SBACV.
Como conseqüência dos resultados positivos obtidos no município ocorreu, a seguir, a implantação do Programa na Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro, iniciada em dezembro de 2004, capacitando equipes de atenção ao pé diabético em todos os municípios do Estado, completando o treinamento de 1690 profissionais em 53 módulos, e a implantação de uma rede de assistência em todos os níveis, com fluxos, contra-fluxos e referências definidos.
O sucesso do Programa atravessou as barreiras do Estado e tem sido apresentado em diversos municípios brasileiros. Em novembro de 2009, a convite da Universidad de Navarra, em Pamplona, na Espanha, o Dr. Jackson Caiafa, apresentou o Programa na Jornada de Atualização em Terapia do Pé Diabético, realizada naquela Universidade. Na ocasião, foi inaugurado o Centro do Pé Diabético da Clínica Universitária de Navarra, criado pelo Dr. Gaudêncio Espinosa, Chefe do Serviço local de Cirurgia Vascular, e baseado no modelo do Programa de Atenção Integral brasileiro. Presente ao evento, o Presidente da Federação Espanhola de Diabetes, Dr. Ricardo Garcia-Mayor, manifestou muito entusiasmo com o Projeto e seus resultados, acreditando que esse modelo possa ser utilizado em muitos outros países em todo o mundo.
DE OLHO NO PÉ
LEVANDO EDUCAÇÃO, CUIDADO E CIDADANIA A QUEM PRECISA.
A Campanha DE OLHO NO PÉ marca a aproximação definitiva da SBACV com a população mais carente, possibilitando aos diabéticos, com graves problemas nos pés, ganharem, não apenas a apropriação do conhecimento necessário para exercer o auto-cuidado, como também multiplicar o alcance e a intensidade de seu tímido lamento, até então longe do ouvido das autoridades da saúde brasileira, amplificando e transformando-o em um verdadeiro grito de indignação. Para obtermos qualidade e visibilidade nessas ações, novos e importantes parceiros deverão se juntar a nós e, nesse sentido, o Dr Pitta, Presidente da nacional, e o Dr. Caiafa, Coordenador de Projetos Sociais da SBACV, estiveram em Brasília em reunião com a Diretoria da CNI - Confederação Nacional da Indústria em busca de apoio.
Inicialmente, duas ações principais serão implementadas pelos já citados parceiros SBACV-ACD-FENAD-CNI.
1 – Participação na campanha AÇÃO GLOBAL, com montagem de tendas para Exame, Classificação do Risco e Orientação de diabéticos previamente identificados por outras entidades participantes na ação. (FOTOS de ações anteriores da ACD no Rio de Janeiro)
Serão montadas 2 tendas, que compreenderão as seguintes atividades:
- Tenda 1: recepção e cadastramento dos pacientes.
- Tenda 2: Exame dos pés dos diabéticos + hidratação, massagem e orientação.
Expectativa de atendimento: cerca de 1000 pessoas, com 100 a 200 diabéticos por dia.
Durante o atendimento deverão ser distribuídos folders educativos para todos os indivíduos, diabéticos ou não, com o intuito de difundir os cuidados e a necessidade dos cuidados preventivos, diagnóstico precoce e tratamento adequado dos pés dos diabéticos e temas anti-tabagistas e de combate à obesidade.
2 - DE OLHO NO PÉ DA COMUNIDADE
Ações específicas desenvolvidas, em um final de semana, pela realização de Feiras de Saúde e Cidadania em comunidades carentes previamente selecionadas, com periodicidade mensal. Inicialmente poderão ser realizados dois projetos-piloto nos municípios do Rio de Janeiro e de Maceió.
No mês de novembro, as feiras acontecerão, simultaneamente, na semana que abrange o dia 14 de novembro, Dia Mundial do Diabetes, se possível nesse mesmo dia.
Serão montadas, para atendimento de saúde, no mínimo 20 tendas, que compreenderão as seguintes atividades:
- Tenda 1e 2 : recepção e cadastramento dos pacientes.
- Tenda 3 e 4: exame de glicemia capilar (cerca de 700 a 1000 exames por evento).
- Tendas 5, 6 e 7: Aferição da Pressão Arterial.
- Tendas 8, 9 e 10: Antropometria – peso, altura, circunferência abdominal e cálculo do IMC.
- Tendas 11 e 12: exame de colesterol e creatinina capilar para pacientes selecionados por critérios técnicos (cerca de 300 exames).
- Tendas 13, 14 e 15: Exame dos pés dos diabéticos + hidratação e massagem.
- Tendas 16 e 17: Fundo de Olho dos diabéticos com diagnóstico prévio ou identificados na campanha.
- Tendas 18, 19, 20: Auditórios de Orientação e Apoio.
Expectativa de atendimento: 700 a 1000 indivíduos por dia com um percentual de diabéticos variando entre 15% e 20% segundo experiência em eventos semelhantes.
Durante o atendimento deverão ser distribuídos folders educativos para todos os indivíduos, diabéticos ou não, com o intuito de difundir os cuidados e a necessidade do diagnóstico precoce e tratamento adequado do diabetes mellitus e de suas complicações. Serão distribuídos, além dos folders já anteriormente citados, folhetos e livretos com orientações específicas para cuidados com os pés e temas anti-tabagistas e de combate à obesidade e hipertensão.
Deverão ser providenciados SHOWS com artistas populares da MPB e a apresentação de PEÇA DE TEATRO SOBRE DIABETES, a ser realizada em palco ou em caminhão adaptado.
Outras tendas com múltiplos serviços de reafirmação da cidadania e de necessidades mínimas, como documentação, serviços de orientação jurídica, participação do Corpo de Bombeiros, PM e Guarda Municipal, corte de cabelo,etc deverão ser incentivadas.
Ao final de cada evento, deverá ser criada e inaugurada na comunidade uma Associação de Diabéticos para cuidar dos interesses dos diabéticos locais, filiada à Federação Nacional de Entidades de Diabéticos (FENAD).
OBJETIVOS
- Detectar na população casos de diabetes mellitus diagnosticado e não diagnosticado ;
- Detectar na população os fatores de risco para o desenvolvimento de diabetes mellitus
- Detectar na população as complicações podológicas do diabetes mellitus;
- Classificar o risco de complicação nos pés dos indivíduos diabéticos;
- Detectar na população os hipertensos diabéticos e não diabéticos;
- Detectar na população os hipertensos não controlados;
- Orientar e educar os diabéticos e hipertensos diagnosticados.
- Criar Associações de Diabéticos em cada comunidade visitada.
|
|